Abr 19 2008
As
mídias globais e os cidadãos transnacionais
Um jornal para o mundo, para os leitores e usuários de todo o planeta. Sem
fronteiras, na língua da globalização, o inglês, que é ensinado obrigatoriamente
em boa parte das escolas da Terra.
A quinta edição do relatório The State of the News Media,
produzido pelo Projeto de Excelência em Jornalismo, uma
plataforma independente e apartidária do Pew Research Center de Washington,
aponta que é isso o que está ocorrendo com os principais sites noticiosos dos
Estados Unidos, em particular com o Google News, Yahoo News, MSNBC, CNN Online e AOL News.
Os sites estadunidenses (mas não só) dedicaram cerca de 25% de tudo o que
produziram ao noticiário internacional que não tem relação direta com a política
externa americana. E outro ¼ para as notícias ligadas diretamente aos pedaços do
mundo que Bush pretende transformar em currais texanos. Especificamente o
Iraque, o Paquistão, o Irã e a Coréia do Norte. Nesta lista dos desejos (mas em
situação distinta), inclui-se também a China, com seus mais de 1 bilhão de
habitantes, fortaleza econômica e desejos imperiais.
O gráfico abaixo, com dados relativos à cobertura em 2007, mostra a média de
notícias internacionais veiculadas pelas outras mídias americanas. Os jornais
dedicaram ao mundo 13% de todo o conteúdo produzido, as TVs a cabo, no
noticiário noturno, apenas 4%.
Ao redor do mundo
O próprio documento procura apresentar uma explicação para o fenômeno.
“One import difference is that the audience for many of these web sites,
according to online news professional, is more international in origin. The
audience for network evening newscast, for instance, lives by and large in the
United States. The audience for Yahoo News lives around the world”.
(Uma
diferença importante é que a audiência para muitos desses web sites, de acordo
com os profissionais de jornalismo online, é mais internacional. A audiência dos
noticiários noturnos a cabo, por exemplo, vive, em larga medida, nos Estados
Unidos. A audiência do Yahoo News vive ao redor do mundo)”.
Eu arriscaria outra explicação também. Isso ocorre por conta da inexistente
limitação de espaço na web. Jornais são finitos. Noticiários televisivos
dificilmente duram mais de uma hora, mesmo aqueles exibidos por emissoras que se
dedicam 24 horas a notícias. Por conta dessa finitude, os editores precisam
escolher entre um tema de abordagem nacional e um tema internacional, pensando
especificamente no que pode interessar mais ao seu público.
Boa parte dos sites analisados são agregadores de conteúdos. Ou seja,
processam informações (mecanicamente, por meio de algoritmos, ou,
tradicionalmente, por meio da intervenção humana) produzidas por outras
redações. São os serviços em inglês das agências internacionais que sobremaneira
alimentam esses sites, oferecendo notícias fresquinhas da Romênia, do Kurdistão,
da Argentina, do Camboja. Em certas redações, esse conteúdo é jogado fora. No
online, vai para o ar.
Existe um cidadão global?
Mas quem seria o leitor desses veículos online globais?
Os cidadãos do mundo, a pequena elite de indivíduos que transita, como o
capital financeiro, de Nova York a Kuala Lumpur e de lá à cidade do México em
poucas horas, numa mesma semana? São esses veículos arautos de um futuro no qual
teremos um conjunto de leis para cidadãos que vivem ao redor do globo? Ou se
trata, sobretudo, de mídias que correspondem ao atual estado do capitalismo
virtualizado e seu desejo de destroçar os Estados-Nação? Essa mídia global é
produzida para o cidadão transnacional? Para mim? Para você?
Não saberia responder. E caberiam muito mais perguntas.
O que o estudo não mostra, porém, é que na contramão desse processo
experiências de jornalismo hiperlocal, organizadas por comunidades para
comunidades começam a surgir, mostrando que os indivíduos ainda se preocupam com
aquele território reduzido no qual passam a maior parte de suas vidas: as
redondezas, a comunidade, o bairro, a cidade.

